A história do mundo e da economia tem revelado repetidamente que viver além dos nossos meios ecológicos provaram ser desastroso. Os Maias, os nórdicos, o povo da Ilha de Páscoa, o colapso dessas civilizações é em grande parte atribuído à exploração excessiva dos recursos naturais.

Hoje, a humanidade corre o risco de um destino semelhante. À medida que a crescente população mundial exerce pressão exponencial sobre os recursos naturais cada vez menores do planeta terra.

Um Imperativo Global da Economia Circular

O nosso “orçamento” de recursos naturais está em déficit, deste modo ameaça a saúde da nossa sociedade global, do nosso planeta e da nossa economia. Todavia estima-se que os humanos usam os recursos naturais 1,7 vezes mais rápido do que o nosso planeta se pode regenerar. Na verdade, em julho do ano de 2019 o mundo já teria queimado o seu ‘orçamento’ de matérias-primas para o ano inteiro.

Devemos e teremos de encontrar novas maneiras de usar explorar os recursos naturais, materiais e commodities com mais eficiência.

É necessário estabelecer modelos alternativos que criem valor económico bem como valor ecológico simultaneamente.

Devemos dobrar a curva de uma economia do “take-make-dispose” para uma economia circular, onde o crescimento económico é dissociado do consumo de matérias-primas.

Para alcançar esta mudança de paradigma, precisamos de reconsiderar tudo. Desde a forma como projetamos os produtos e o que fazemos com eles no momento em que terminamos o seu uso. Até aos novos negócios e modelos de financiamento que irão impulsionar uma economia circular.

Mas não se trata apenas de reduzir os danos e riscos ao nosso planeta – os benefícios sociais e económicos são inúmeros.

A eficiência dos recursos pode diminuir os custos de materiais e reduzir a volatilidade dos preços.

Por conseguinte a redução da dependência da extração de recursos pode reduzir as tensões geopolíticas.

Com efeito, a aplicação dos princípios da economia circular poderia desbloquear até € 1,8 trilhões em valor apenas para a economia da Europa.

Mudando para modelos circulares

Nesse sentido a transição para uma economia circular exigirá uma mudança fundamental na forma como os ativos ou bens são consumidos e administrados.

Por exemplo, a mudança da venda de produtos para a venda de serviços já se está a tornar um lugar-comum, quer consideremos eletrodomésticos, veículos ou equipamentos de IT.

Essas aquisições de bens moldados à aquisição de serviço ajudam os clientes a superar a barreira comum de alto dispêndio de capital. Permitem que os fornecedores mantenham a propriedade dos produtos para otimizar o seu uso e aumentar simultaneamente a longevidade e durabilidade.

Exemplo Empresa HPE

Temos o exemplo da empresa HPE e os seus modelos de IT baseados no consumo. São chamados HPE GreenLake, já otimizam a eficiência dos Data centers e as infraestruturas dos seus clientes. Os clientes normalmente provisionam 48% em excesso para computação e 59% para armazenamento. Dessa forma resultando num desperdício financeiro e ambiental caro de equipamentos de IT não utilizados. O HPE GreenLake resolve isso permitindo que os clientes usem apenas os recursos de IT que necessitem, resultando em 30% de economia de CapEx com o sobreprovisionamento evitado. Dado que a HPE retém a propriedade dos ativos de IT num modelo baseado em serviço, também tem a capacidade de recuperar o equipamento no final de uso e recondicioná-lo para uma segunda ou potencialmente uma terceira vida. A procura por estes modelos está a crescer cada vez mais.

Financiando a Economia Circular

Embora a transição para uma economia circular vá perturbar os modelos tradicionais financeiros com novos desafios para os nossos sistemas económicos modernos, também criará novas oportunidades significativas para gerar valor a longo prazo. As instituições financeiras podem antecipar interrupções futuras considerando o “orçamento” de recursos da Terra na sua tomada de decisão: identificando onde os riscos lineares estão escondidos nos seus próprios portefólios – como aqueles relacionados à escassez e volatilidade de recursos – e criando novas opções de financiamento para empresas comprometidas com a sustentabilidade.

Por exemplo, temos visto uma tendência crescente para que as empresas usem taxas de financiamento como uma alavanca para impulsionar o progresso nas metas de sustentabilidade.

Temos o exemplo da gigante multinacional americana Walmart que se associou ao banco britânico multinacional HSBC no ano de 2019 para oferecer a seus fornecedores globais taxas de financiamento aprimoradas vinculadas ao seu desempenho de sustentabilidade. Sob o mesmo ponto de vista a multinacional holandesa Royal DSM assgurou uma linha de crédito rotativo de 1 € bilhão com juros que dependem da redução dos impactos climáticos da empresa.

Existe uma responsabilidade e uma oportunidade para as instituições financeiras avaliarem ativamente as empresas em que investem. Avaliando o seu desempenho social, ambiental e a sua resiliência para enfrentar esses desafios. A evidência mostra que os clientes que lideram na gestão ambiental, social e de administração, exibem melhor desempenho financeiro e melhores classificações de crédito. Deste modo sugerindo que direcionar mais ativos e capital para esses negócios criará um portefólio saudável para os bancos enquanto acelera a transição para um nível baixo de carbono e para uma economia circular.

Incorporar o Pensamento Circular

Para capturar essa oportunidade, o pensamento circular precisa ser incorporado na preparação dos funcionários do setor financeiro. Aprender a pensar num horizonte de tempo mais longo e considerar as implicações em todo o ciclo de vida do produto. Com efeito, os bancos que não entendem a circularidade irão sentir-se menos competitivos. Tanto para atender as necessidades dos seus clientes atuais e futuros, como da mesma forma para ajudar a construir um mundo mais sustentável.

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